Os passados tão presentes

Existem autores que foram, a seu tempo, considerados como delirantes em suas ficções de futuro e, com o passar dos anos tornaram-se célebres como futuristas. O maior exemplo desse tipo de escritor é Jules Verne que, por sinal, não se autodenominava futurista e cuja única história que ainda não se cumpriu foi a Viagem ao Centro da Terra.

Mas também existem aqueles, que também não se considerando como pitonisas do que viria a acontecer, tinham uma leitura muito sensível do tempo em que viviam e, mesmo sem querer, acabaram por descrever bem antes dos acontecimentos dos fatos o que agora chamamos de realidade.

Desses, os meus preferidos são Umberto Eco e Jean Baudrillard.

Eco escreveu Apocalípticos e Integrados em 1964, livros que descrevia o eterno confronto cultural entre demonizar as mudanças sociais e culturais e seguir a onda e absorvendo rapidamente essas mudanças. Seu texto vai muito além da dicotomia entre conservadores e progressistas (até porque esses termos mudam de sentido de acordo com a perspectiva em que cada um os olha. Existem pessoas conservadoras quanto aos costumes e progressistas em relação à tecnologia ou à economia).

Mas ele não parou por aí. Até morrer em 2016 ele continuou dissecando os significados da arte, da cultura, do comportamento, da tecnologia e da política. Seu último livro, Papa Satan Aleppe, publicado em 2017 é uma aula a respeito dos nossos tempos e do que nos espera.

Com um humor que lhe era peculiar Eco se declarava um especialista em posmonição : “Nunca ninguém tratou da posmonição, que é também um fenômeno extraordinário. Pois bem, eu tenho este dom, mas até agora o tinha mantido em segredo, com medo de me expor a ironias e gozações”

Do outro lado dos Alpes, ou da praia caso você siga pelo Mediterrâneo, estava Jean Baudrillard, três anos mais velho que Umberto Eco e cujo primeiro livro é de 1968 e o último de 2004.

Baudrillard foi considerado um personagem polêmico, especialmente com suas teorias sobre mídias e comunicação, e também por sempre negar a possibilidade de qualquer verdade absoluta. Sua postura irônica e não poucas vezes niilista, gerou muitas controvérsias, provavelmente a maior delas sobre a guerra do Golfo.

Também sem ser nenhuma mãe diná, ele conseguiu descrever de forma bem clara a nossa caminhada recente em direção à hiper-realidade no seu livro Simulacros e Simulações de 1981, onde apresenta sua definição das fases do afastamento da realidade.

Baudrillard enunciou fases sucessivas em qualquer simulação da realidade. Na primeira fase a simulação é reflexo de uma realidade profunda; “…a imagem é uma boa aparência – a representação é da ordem sacramental.” Na segunda fase a simulação mascara e distorce uma realidade profunda; Baudrillard descreve isso como “uma aparência maligna – é da ordem da maleficência”. Na terceira fase a simulação mascara a ausência de uma realidade profunda; “ela brinca de ser uma aparência – é da ordem da feitiçaria.” Finalmente, a simulação se liberta completamente da realidade – torna-se sua própria imagem pura. O que ele explica que é diferente de fingir ou dissimular (que pretende mostrar ser ou ter o que não se é ou não se tem), a dissimulação não afeta a realidade, apenas a mascara, enquanto a simulação ameaça a diferença entre o verdadeiro e o falso.

Mas não é só a teoria que ele apresenta no livro. Em uma série de outros artigos ele viaja em exemplos de simulações e simulacros como a história, a ameaça nuclear, o cinema (detendo-se em Apocalypse Now e The Crash), a ficção científica, o fake museu de Beaubourg, os supermercados, a mídia, clones, hologramas e encerra o texto com a fabulosa descrição do nihilismo simulado dos nossos tempos (quase um nihilismo light).

No entanto a percepção aguçada de Baudrillard não se limita a esse livro. A transparência do mal (1990), Telemorfose (2001) e Power Inferno (2003) também poderiam se enquadrar na mesma categoria de futurismo sem sê-lo explicitamente.

Certamente também era um escritor abençoado pelo dom da posmonição, assim como Eco. E, se posmonição não existe, o mínimo que precisamos reconhecer é que ambos tinham uma sensibilidade extremamente aguçada ou, como diria Confúcio, é preciso conhecer o passado para entender o futuro.