Fast Food do conhecimento

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O Slow Food é uma organização global, fundada em 1989 para evitar o desaparecimento das culturas e tradições alimentares locais, combater o aumento da vida rápida e combater o interesse cada vez menor das pessoas pelos alimentos que comem, de onde vem e como nossas escolhas alimentares afetam o mundo à nossa volta. O Slow Food acredita que a alimentação está ligada a muitos outros aspectos da vida, incluindo cultura, política, agricultura e meio ambiente. Por meio de nossas escolhas alimentares, podemos influenciar coletivamente como os alimentos são cultivados, produzidos e distribuídos e, como resultado, mudar o mundo.

Claro, a ideia geral do movimento é a de se opor às cadeias de fast-food, mas não apenas em relação a elas que o SF se preocupa, para eles, a desaceleração não é apenas em relação ao tempo em que comemos, mas da vida em geral, da pressa que temos para fazer tudo de forma rápida e acumular o máximo de bens materiais no curtíssimo prazo. É uma proposta de qualidade de vida, não só de digestão de alimentos mais saudáveis.

Em texto publicado no Linkedin, o Dario Mendes fala a respeito de desaceleração das jornadas de trabalho, da saúde mental e, ao me deparar com isso falei a respeito do meu hábito de leitura lenta (e cuidadosa) de livros analógicos, em oposição às muitas opções com as quais nos defrontamos de conhecimento rápido, jocosamente me referi aos TED Talks como o fast-food do conhecimento.

A menção é de um caso emblemático e sobejamente conhecido, mas não se restringe a ele (ainda que, mais de uma vez tenha ouvido gente falar que depois de ouvir os 18 minutos do TED Talk de fulano, não precisava “perder tempo” lendo o livro do mesmo fulano). Apesar da piada, eu já assisti vários dos TED Talks e alguns me estimularam a ir atrás do autor para entender melhor suas teses, para mim a plataforma funciona como um filtro e não como substituto do conhecimento.

Pululam nas redes as ofertas de “conhecimento” (e aqui as aspas são autoexplicativas) rápido. Cursos de programação complexa em poucos dias. Oferta de solução para todos os problemas da vida em lives de 1 hora e, pasmem, outro dia vi uma oferta anunciando o aprendizado de inglês em UM dia. Os que caem na rede serão os mesmos que depois vão ter muita dificuldade em se colocar de forma estável no mercado de trabalho.

Ao mesmo tempo, os promotores dessas maravilhas ilusórias, são aqueles que de forma direta, ou indireta, postam discursos depreciativos a respeito da educação formal, da leitura mais densa e da reflexão crítica (afinal, dizem eles, o importante é saber fazer – e rapidamente-  e não o porquê fazer). O que é um discurso bastante óbvio, afinal são esses mesmos críticos do conhecimento lento que vão enriquecer oferecendo seus cursos rápidos.

Enquanto as pessoas acharem que o caminho rápido oferece o suficiente para as suas vidas, continuarão patinando sobre o gelo fino. O risco é escolha de cada um, mas não esqueçam que se o gelo quebrar podem morrer de hipotermia.

Encerro o texto com a frase final do Dario: “Muitos não poderão ler todo o texto, porque não podem “perder” o seu tempo neste mundo dinâmico e globalizado. Ou talvez estejam comendo seu lanche rápido enquanto procuram novidades na internet…”